Porquê Robert Capa

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Como interpretar uma imagem? Como explicar perante um público o que nos transmite uma fotografia? Como definir a sua beleza?

Lembro-me que a tarde cheirava a mofo, e a escuridão da sala começava a inquietar os meus nervos já por si afectados com a aproximação da apresentação de um trabalho teórico perante a turma de fotografia. Nunca gostei de apresentar trabalhos, de sentir os olhos da assistência focados em mim, nas minhas palavras e gestos. Não dava para seguir a carreira de política, isso é certo.
Mas adiante.
Preparava-me para apresentar o trabalho final teórico, da cadeira de Fotojornalismo, sobre “O Nosso fotógrafo de eleição”. Escolhi Robert Capa pela cobertura do Desembarque na Normandia, da 2.ª Guerra Mundial e da Guerra Civil Espanhola. E, essencialmente, pela permanente criatividade com que sempre viveu a vida. Ou não tivesse ele, Endre Ernö Friedman, inventado uma personagem, Robert Capa, para conseguir singrar no mundo do fotojornalismo. Estava eu naquela sala bolorenta, ansiosa para que chegasse a minha vez de apresentar o trabalho, quando o professor interrompeu os trabalhos, abanou a cabeça e disse: “Não foi nada disto que eu pedi”. Pelos vistos o que ele tinha pedido ninguém tinha percebido o que era. Interpretar as imagens, como mensagem, sem biografias copiadas da internet, sem textos pardacentos – disse ele. Se não gosto de ser o centro das atenções, muito menos de improvisos, de reflexões puxadas a saca-rolhas, de expor a minha opinião perante desconhecidos. Acho que o próprio Robert Capa me obrigou a tal exercício mental e foi através daquelas fotos, seleccionadas para o trabalho, que aprendi a olhar para as imagens sem medo da minha própria subjectividade. Lembro-me que enquanto falava, olhava, como se pela primeira vez com olhos de ver, para os belos retratos, sem pensamentos formatados, sem enquadramentos, composições, linhas-guia, regra três terços e por ai fora. Apesar de ter como marco histórico do trabalho do fotojornalista as fotografias tiradas no Desembarque da Normandia, devo dizer que Robert Capa é mais do que isso. Para mim, Robert Capa será sempre um retrato de jovens militares franceses serenos a descansar na protecção da estátua de uma santa, como se não houvesse guerra, como se aquelas criaturas fossem pequenas demais perante a grandiosidade de algo que está para além do terreno. Ainda hoje penso se aqueles jovens estariam simplesmente a descansar, ou a rezar, à espera da morte, desejando que esta não fosse dolorosa. Os militares recuados, a estátua no centro da composição elevando a mão, em sinal de paragem, pedindo ao inimigo para não disparar, pedindo um momento de tréguas para uma sandes, uma soneca.
Ainda hoje penso naquela imagem. Terá sido propositada ou terá simplesmente saído assim na película????
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