"Príncipe incógnito"

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"Beckett, lince geométrico na esquina de uma estante. Marilyn com os olhos já envelhecidos segurando um copo contra o decote. Um Capote jovenzinho e insinuante num jardim tropical. Duchamp atrás de uma roda inútil de bicicleta. Piaf, a trágica sonâmbula. A beleza estranha e vertical de Giacometti. Camus de sobretudo e beata. Pound, majestoso leão exausto. Balthus acariciando um gato desconfiado. O aristocrata Faulkner a um canto da imagem, com dois
cães pelas costas. Colette com roupa e maquilhagem a mais. O severo Braque. O modesto Bonnard. Matisse de roupão fazendo esboços no meio de pássaros saídos das gaiolas. Sartre de cachimbo com uma cidade nebulosa em fundo. A cabeça descomunal de Neruda. Genet de mangas arregaçadas e aspecto de rufia. Breton captado com evidente temor reverencial.
Há poucos legados artísticos tão impressionantes como os retratos de Henri-Cartier Bresson, fotógrafo que Gombrich comparou a Vermeer e Velásquez. Em vez de romances inúteis, invistam por exemplo em An Inner Silence: The Portraits of Henri Cartier-Bresson (Thames & Hudson, 2006). É uma espécie de Louvre portátil (...).
Durante cinco décadas, Cartier- Bresson percorreu o mundo (...) Houve quem o considerasse um dos mais importantes historiadores do presente. Mas ele dizia que apenas contava histórias, usando a sua máquina como se fosse um diário. (...)
Quando fotografou Simone de Beauvoir e esta lhe perguntou se ia demorar muito tempo, Henri
respondeu: “um pouco mais do que no dentista e um pouco menos do que no psicanalista”. Quando não se aventura pelo mundo, peregrina pelas ruas conhecidas e desconhecidas, quase invisível, à caça daquilo a que chamou “o instante decisivo”: aquele que fixa a eternidade.
Na biografia L’oeil du siècle (Plon, 1999) Pierre Assouline tem uma fórmula feliz: diz que Cartier- Bresson se aproximava dos seus alvos como um dançarino e que fotografava como se jogasse
esgrima. Em contrapartida, foi fotografado poucas vezes. O observador, escreveu Baudelaire, é
um príncipe incógnito."
Pedro Mexia (Público, 23 de Agosto de 2008)
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