A obscuridade

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As gotas de sal dissolvido acompanharam-me no regresso a casa. Desceram timidamente pela minha face, num comportamento ambíguo de contenção de raiva e de despertar da fúria consciente, racional e intelectual. As pernas tremiam perante a inconstância dos passos, sob o frio de um solo que teimava em fugir de debaixo dos pés. O corpo tentava resistir à sacudidela provocada por um sistema nervoso agitado e inebriado pelos gritos internos que dilaceravam as veias uma a uma, no êxtase do prazer maquiavélico.
Tentei acalmar o turbilhão de pensamentos psicopatas que transformaram o meu ser num antro deplorável e obscuro.

O sol raiava por detrás do meu ombro esquerdo, lá junto aos montes, onde cada madrugada revela ser a ebulição de procedimentos rotineiros, encaixados nos queixumes monótonos do gado.
Deixei-me invadir pela segurança da crença num novo ciclo, na crença da diferença marcada pela luminosidade frouxa, em franco crescimento, a varrer a escuridão da superfície terrestre.

O contraste das tonalidades dispersas pelo céu, advertiram-me para a inexistência desse ciclo pacífico, pressagiando, assim, uma batalha iminente entre os tons alaranjados e o aglomerado de consistentes nuvens.

Centrei o olhar no caminho, que persistia em baralhar o futuro. Estendia-se na obscuridade de um regresso a casa confuso, continuava para dentro das entranhas de um ventre escuro que concebe o nascimento dos sentimentos defeituosos.
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