Portraits - Alice

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A noite adormeceu com amargura nas ruas de Lisboa, conduzindo a cidade para um amanhecer entorpecido, preguiçoso, talvez até manhoso. A rotina espreita vagarosa por entre os ruídos sistemáticos de alguns estabelecimentos, que servem assim de despertador.

A intensa pluviosidade que ajudou a lavar o manto sujo nocturno continua presente, penetrando o ar que a madrugada respira, impregnando-o de podridão, de uma cólera persistentemente doentia. Um cheiro que não incomoda os sem-abrigo que aquecem a garganta vomitando queixas sucessivas junto dos rostos pacientes do apoio ambulante.
Os correios, os padeiros, as carrinhas de transporte de….coisas, muitas coisas que refastelam o nosso quotidiano consumista ostensivo cortam com ferocidade o trôpego renascimento.
É assim, sempre igual e ao mesmo tempo diferente o amanhecer na grande cidade, onde a dicotomia silêncio e ruído se confunde com morte e vida.
Um amanhecer que passa despercebido a Alice enquanto percorre as ruas num táxi carcomido pelas sucessivas, algumas infundadas, crises, mas acima de tudo falta de brio de um Manel ou José. Alice permite-se fechar as cortinas da alma apagando assim aquele que devia ser o derradeiro retorno da filha pródiga. Mas Alice não é filha, nem é mãe, nem parente de ninguém, apenas um ser vivo que regressa à solidão do seu habitat primário.
A consciência racional avisa-a que será aldrabada pelo taxista, que num acto de boa vontade, lhe proporcionará um passeio longo e cinzento pelas circunvalações e atalhos longuíssimos que ligam o aeroporto à baixa. Ela sabe….mas ignora o seu bom senso. Alice está cansada. Fecha os olhos para esquecer dois anos de permanentes viagens em primeira classe, hotéis luxuosos, refeições confeccionadas pelos chefes mais recomendados pela crítica especializada e de monumentos que todos desejam ver. Em dois anos, Alice percorreu o mundo. Ou melhor, percorreu meio mundo, aquele onde os homens usam fatos Armani, bebem Daiquiris e facturam milhões de dólares após reuniões com magnatas do mundo por civilizar. Um espaço que Alice domina na perfeição. Também ela veste Armani, mas prefere Dolce e Gabana, e opta por cerejas embebidas em Manhattan’s.
Após dois longos anos, Alice cede finalmente à fragilidade do seu corpo e ao mau estar mental que a atormenta, desejando que o Táxi continue a pedalar mesmo para lá do combustível que transporta, de forma a desvitalizar o raiar coxo dos primeiros raios de sol sob Lisboa.
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