Leituras tardias

Uma partilha
"Fui até ao jardim, levantei a tampa do poço e espreitei. Lá dentro reinavam as mesmas trevas profundas de sempre. Conhecia agora muito bem o poço, como se fosse uma extensão do meu próprio corpo: a sua escuridão, o seu cheiro, o seu silêncio haviam-se convertido numa parte de mim. Num certo sentido, conhecia melhor o poço do que conhecia Kumiko. Era evidente que bastava fechar os olhos para me recordar dela, de cada pormenor do seu rosto, do seu corpo, para trazer à memória os seus gestos, a sua maneira de andar. Tinha vivido seis anos com ela na mesma casa. Ao mesmo tempo, porém, tinha a sensação de que havia coisas que diziam respeito a Kumiko que era incapaz de recordar com nitidez. Ou, se calhar, não estava assim tão certo das minhas recordações..."


in Crónica do Pássaro de Corda de Haruki Murakami
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