Escritas

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"A mulher do José era uma rapariguita magra, de uns dezasseis anos de
fome e de pouco. E andava por todo o lado, furava pelo meio de nós, corria,
como se alguma coisa que ela fizesse pudesse salvar o pai de morrer, como se
ela trazer uma toalha lavada: uma toalha que ela tinha esfregado e esfregado de
encontro às pedras e posto ao sol: como se uma toalha que ela trouxesse pudesse
salvar o pai que tossia nuvens de fumo e golfadas de sangue, como se tossisse os
pulmões diante de si; como se ela trazer um copo de leite: leite que ela pedia e
lho recusavam, que ela pedia e que lho recusavam, que ela pedia e lho davam a
dizer nunca mais me apareças: como se um copo de leite o impedisse de arder
por dentro e, a seguir, vomitar tudo e vomitar o copo de leite.
Ela corria porque o pai era a única pessoa. Foi num setembro, à tarde. Ainda
ele não tinha sido enterrado e, isto reparei eu, de vez em quando, na rua, passava
o gigante e agachava-se para espreitar pela janela."

(in "Nenhum Olhar" de José Luís Peixoto)





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