Equilíbrio interior

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A senhora olhou para mim com algum desdém. Apenas por breves segundos. Os suficientes para despontar em mim uma sensação incomoda. Depressa voltou a enfiar a sua concentração no "bip bip" da caixa registadora. Enquanto as suas mãos se moviam em gestos automaticamente mecanizados, perguntou uma vez mais, incrédula:"Mas tem a certeza que não tem cartão?""Mau" pensei eu. Repeti num perfeito tom monocórdico a simples mensagem que tinha proferido anteriormente. "Não, não tenho!", respondi, mantendo uma certa indiferença.Todo aquele momento me parecia estúpido e estéril."Sabe que tem vantagens se aderir ao nosso cartão"Finge não ouvir a funcionária e continuei a empacotar as minhas compras. Quando dei conta, tinha as senhoras das caixas mais próximas a manejar a cabeça em sinal de desaprovação. Apeteceu-me elevar um bocadinho mais a voz e vociferar o argumento mais parvo e vazio: "Eu faço o que quiser. Portanto, só tenho o cartão se quiser!". Mas cai a tempo no meu juízo perfeito, só fiquei com uma sensação miudinha de que tinha ditado a minha sentença de exclusão daquele supermercado. Talvez uma sensação um pouco dramática ou paranóica. Porém, todo aquele momento me catalogava como elemento da máfia ou ser não identificado a marchar pelo planeta. Simplesmente, porque não partilhava, com os demais cidadãos, um pequeno gesto de carregar comigo um cartão, de cor berrante. Julgamento parvo e bastante limitado, mas revelador de uma sociedade consumista, que ignora o mais importante: o equilíbrio interior.
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