A vida privada de Darbus

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O sol amarelado de Outono inunda o quarto de paredes brancas e decoração minimalista. Apesar do calor frouxo que imana, é uma luz dura que cerca os objectos inanimados.
Um copo de água, paralisado em cima da mesinha de cabeceira, cintila perante a luminosidade celestial. É o centro das atenções de uma cabeça loira, parcialmente escondida na imensidão de um edredão neve, que repousa numa almofada imaculada.Com firmeza no olhar, os pensamentos esbatem-se contra o vidro reflector do copo de água. Uma figura desalinhada desvenda o alheamento melancólico de uma alma receosa.
As cortinas verde, de um verde semelhante à ilusão criada, no norte gelado, pelas partículas solares que tentam trespassar o campo magnético terrestre, trepidam na subtileza da brisa matinal da estação. O cântico sofrido de uma ave migratória desterrada apossa-se do quarto, sem convite prévio. O lamurio interrompe a viagem mental de Darbus, obrigando-a a retomar à realidade. "Foda-se", exclama num irritadiço e desconcertante tom de voz, ou visionar a janela entreaberta. O corpo revolve-se na cama, deixando a descoberto uma face redonda, pálida, esguia, na qual as maçãs do rosto sobressaem, assim como um par de olheiras negras e profundas. O cabelo loiro estende-se até aos ombros, também eles estreitos. Darbus não tem mais do que 20 anos. Darbus é ainda uma menina, aprisionada num corpo maduro, mas sem curvas, um retrato da ténue linha de desconforto que percorre.
O rádio despertador anuncia as 11h00, horas a que a mãe lhe recomendou acordar, ao som do Requiem de Mozart.
A muito custo, Darbus impele o corpo a sentar-se à beira da cama. Pragueja contra algo, num dialecto imperceptível. A voz da ave, suspensa à entrada da janela, e as notas da Antena 2 estreitam-se numa relação fúnebre que toma de assalto o espaço, à medida que a cabeça loira enterra a sua face nas pernas.
Num tom singelo automático, ainda com a cabeça, pesada, apoiada nos joelhos, a telefonia é desligada. Darbus levanta-se e dirige-se à cozinha.
Em cima da mesa, um bilhete com notas da progenitora aguardam o seu acordar.
“Filha faz o almoço. Decide o que queres fazer. A escolha é tua. Eu chego tarde. Um beijo.”
Darbus atira um riso cínico para o ar. Em cima da banca da cozinha, todos os ingredientes perfilados, denotam a liberdade que lhe é conferida, para realização da tarefa.
A água corre por cima das suas mãos, retirando a terra das batatas. A cabeça inclinada para a esquerda. Com gestos lentos, ordeiros, a faca despe a casca, extraindo-a em rodelas perfeitas que caiem no fundo do lava-loiça.
Darbus levanta pela primeira vez a cabeça ao dia. Observa o pastor a apanhar nozes, enquanto as ovelhas ruminam os tempos insignificantes.
“Auuu……”
Uma gota de sangue escorre do anelar de Darbus, sendo o castigo da sua distracção.
Darbus desliza as costas pelo móvel da cozinha. Senta-se no chão. Desata num choro compulsivo.
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