ELA

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Chega sempre de mansinho. Como a noite. A arrastar as pernas, a pedir ao cérebro permissão para utilizar todas as faculdades que um ser humano tem direito. É no silêncio que ela se move. Mas a escuridão, como a da noite, é o seu cenário favorito. Ela tem 28 anos e um sorriso de totó sempre estampado no rosto. Um sorriso ingénuo, que acredita no inacreditável, que espera a amabilidade do futuro simplesmente porque acredita com muita força no poder positivo do universo. Ou uma treta parecida. Dá ganas olhar para a miúda. Apetece abaná-la e berrar-lhe aos ouvidos: “Acorda para a vida”. Ela sabe que não tem vida. Vive rodeada de ilusões, de falsos diagnósticos médicos que alimentam a precariedade mental. Coitada, nunca fez mal a ninguém. É boa rapariga. Não fosse o sorriso totó e o facto de emprenhar pelos ouvidos (Lá dizia a minha avó, quem emprenha pelos ouvidos é também língua de trapos) e a sua vida seria outra. Talvez artista de cinema ou quem sabe hospedeira de bordo. Mas não. Não pode ser actriz porque tem o cérebro cansado, nem conseguiria decorar meia dúzia de falas. Já para não falar do rebentamento dos tímpanos se enveredasse por voos mais altos. Chega devagarinho. A sua lentidão é semelhante ao efeito dos comprimidos que toma. Parece-nos a uma primeira fase que já estão a fazer efeito, mal entram pela goela abaixo

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