O crepúsculo

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Sentei-me nas escadas a observar a explosão colorida por detrás do pinhal opaco.
Uma sandes de queijo rançoso acompanha a minha observação. O sangue lateja nas pernas, percorrendo os canais diminuídos.
Doem-me os músculos e a cabeça tem vindo a ser inundada por pensamentos inúteis.
Tento descansar na quietude do crepúsculo e deleitar-me com a iguaria económica que as minhas mãos seguravam de encontro aos lábios.
Sorrio-o com gosto, mas também com ironia, ao vislumbrar, no lusco-fusco, uma linha ténue avermelhada nos confins da terra. A cor do sangue que se esbate nos pérfidos actos da humanidade. A cor do mais belo entardecer.
O tempo corre louco. Sabe a entidade divina, a última vez que visionara tamanho espectáculo natural, em que as árvores se curvam docilmente, numa vénia respeitosa, e os pássaros trauteiam uma pujante opereta de louvor.
Distraída no vazio do ocaso, aproximam-se de mim os novos inquilinos, maneando os exuberantes enfeites dourados, glaciares olhares e um porte atlético. «Já cá faltavam!», exclamo com altivez fingida. «Acredito que brote uma essência deliciosa deste pequeno pedaço de pão, mas, vossas excelências, tenham em atenção que o miolo está duro e o queijo tem bolor. Além disso, caso não tenham reparado na minha voracidade, estou faminta».
Recebo, após a minha explanação, e em jeito de resposta pegajosa, um prolongado e uníssono miar. Os felinos aproximam-se, tacteando o caminho, apossando-se das migalhas substanciais.
Uma felpuda garra enterra-se, com delicadeza, na minha desnudada pele das canelas. Reprimo uma sensação dolorosa, uma dor mais intensa que as deformações que espartilham o sangue nos membros inferiores
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