Cheesecake de Ricotta e Chocolate

Partilha a tua sensação
A Primavera já se afigurava no horizonte temporal quando preparei pela primeira vez este cheesecake. Os rebentos das árvores começavam a despontar, enquanto os prados se enchiam de pequenas explosões de malmequeres selvagens. Os dias começavam a roubar espaço à noite com uma luz mais brilhante. Mas apesar dos sinais de renovação, a verdade é que as temperaturas pediam forno ligado, a lembrar que o Inverno ainda não tinha ido embora. Os limbos podem ser difíceis de aturar. E se é verdade que adoro o Inverno e toda a sua premissa para a reflexão, para o recolher cómodo dentro de casa, também é verdade que já ansiava pela Primavera desde a passagem de ano. Com o ritmo frenético do trabalho e das aulas, sinto que precisava de mais horas com luz. Bem, tenho de confessar, se calhar o que eu quero é que o calendário ande para a frente e se cole o mais depressa possível às férias anuais, que se só devem acontecer lá para o meio do ano.




Foi este cheesecake que me ajudou a receber com um sorriso os últimos dias de Inverno. Estava eu deitada na cama, num destes fins-de-semana preguiçosos a desfolhar livros de culinária (um dos meus hobbies favoritos) quando me apaixonei pela receita de Cheesecake de Chocolate do livro Confeitaria Hummimbird - Receitas de Sonho. Em primeiro lugar, adoro cheesecakes de todos os feitios e sabores. Em segundo, sou uma amante confessa de chocolate. Portanto, eu soube imediatamente que tinha de exprimentar esta receita. Claro que a adaptei, troquei o queijo creme por queijo ricotta, o que tornou a receita mais intensa e mais "em modo conforto". Embora esta seja uma receita mais longa do que habitualmente costumo aqui apresentar, acreditem vale tanto o esforço. E só vos digo, se por acaso tiverem Lemon Curd à mão, sirvam as fatias deste luxuoso (sim acho que posso dizer luxuoso) cheesecake cobertas com essa coalhada. Fica divinalmente pecaminoso. Espero que gostem.







Cheesecake de Ricotta e Chocolate

Ingredientes
Recheio
750g de queijo ricotta
190g de açúcar em pó
5 ovos
150g de chocolate negro (+de 70% de cacau)
100g de chocolate de leite
Raspas de laranja e de limão q.b.

Base200g de bolachas digestivas
2 colheres de cacau cru em pó
150g de manteiga sem sal, derretida

Para a base: trituramos as bolachas num robô de cozinha, juntamente com o cacau cru. Lentamente, juntamos a manteiga derretida na picadora, enquanto esta estiver em funcionamento. Pressionamos esta mistura para dentro da base de uma forma previamente preparada. Utilizamos o punho ou uma colher de sopa para espalmar e comprimir a base. Colocamos no frio enquanto preparamos a cobertura.

Para o recheio: Colocamos o queijo Ricota e o açúcar numa taça e batemos na velocidade mais baixa até obtermos uma mistura macia e cremosa. Juntamos um ovo de cada vez, sem parar de mexer. Raspamos os ingredientes dos lados da taça com uma espatula de borracha depois de adicionarmos o último ovo. A mistura deve ficar muito macia e cremosa. Colocamos na batedeira na velocidade máxima, no final, para que a mistura se torne um pouco mais leve e fofa. Todavia, temos de ter cuidado para não mexer em excesso, senão o queijo separar-se-á.

Num recipiente à prova de calor, pomos os diferentes chocolates e as raspas de laranja. Colocamos o recipiente por cima de uma panela de água a ferver. Não devemos deixar o fundo do recipiente tocar na água. Deixamos que o chocolate derreta e fique macio. Com a ajuda de uma colher, juntamos alguma da mistura do queijo ao chocolate derretido e mexemos para incorporar. Assim iremos homogeneizar as temperaturas das duas misturas. Finalmente, juntamos a mistura do queijo ao chocolate derretido e misturamos até ficar macio e bem ligado. Com a ajuda de uma colher, distribuímos a mistura sobre a base fria de cheesecake. Introduzimos a forma dentro de uma forma maior ou dentro de um tabuleiro e enchemos com água até atingir dois terços da forma. Deixamos cozer durante 40 minutos, e supervisionamos depois desse tempo. Não podemos deixá-lo cozer em demasia, o cheesecake deverá ficar trémulo no meio. Deixamos o cheesecake arrefecer ligeiramente na forma e depois colocamos no frio de um dia para o outro antes de servir.




Ler mais

Os melhores biscoitos de mel (de sempre)

Partilha a tua sensação
Pensar que já lá vão quase onze anos deste cantinho... Ainda faltam uns meses para celebrar mais um aniversário. Mas no último ano tanto mudou para o meu pequenino canto, tantas pessoas boas contribuíram para o blogue crescer, o calendário que ganhou forma, o feedback de pessoas de perto e de longe, aparecer em revistas nacionais, sair do anonimato e ser entrevistada na rádio. Ufa, tanta coisa, tanta mudança que me tem feito pensar. Se algum dia achei que seria este o percurso do Reservatório? Honestamente, não. Nunca houve planeamento, nunca criei grandes expectativas. As coisas foram acontecendo à medida que eu fui também crescendo, conforme o espírito do momento.

Uma coisa que me tenho apercebido é que me custa cada vez mais estar longe deste meu Reservatório. Sempre disse que nunca iria impor deadlines fixos e rígidos para escrever posts, nem iria encarar o blogue como um negócio, mas dou conta que cada vez mais gosto de partilhar textos, receitas, viagens, inspirações convosco ou comigo em “voz alta”. Nas últimas semanas, com várias receitas na calha (e das boas) e com o tempo a escapar tenho pensado muito nisto.


Por isso, apesar do volume de trabalho gigantesco e do facto do novo semestre de aulas me andar a queimar as pestanas, decidi que não podia terminar a semana a negligenciar o que mais gosto, “blogar”. E como se esta decisão não bastasse, decidi que tinha de partilhar convosco uma receita com significado. 






Aproveitei que fui recrutada pelos escuteiros da zona para preparar saquinhos de biscoitos, e retomei uma das receitas mais importantes do Reservatório de Sensações. Na realidade, foi com esta receita que o blogue se virou definitivamente para a comida e que comecei a deixar a capa do anonimato. De facto, na primeira feira de artesanato em que participei, a maior parte das pessoas conhecidas fez fila em frente à banquinha para adquirir um saquinho desta preciosidade. Atenção, não criem já expectativas, estou apenas a falar de uns simples Biscoitos de Mel, mas que para mim são só os melhores biscoitos de mel à face da terra. Quem disse que as coisas boas da vida tinham de ser complicadas de alcançar? Espero que gostem. E Espero que as minhas ausências no blogue (que vão continuar a acontecer, com pena minha) não vos afaste deste cantinho virtual. 


Biscoitos de Mel

Ingredientes
125g de manteiga
2 colheres de sopa de mel (bem cheias)
2 colheres de sopa de açúcar mascavado
1 ¼ de chávena de farinha (sem fermento)
1 colher de chá de fermento em pó


Pré-aquecemos o forno a 160ºC. Numa caçarola juntamos a manteiga, o mel e o açúcar mascavado. Levamos ao lume brando, até a manteiga derreter Tiramos do lume. Peneiramos a farinha e o fermento para dentro da caçarola e mexemos os ingredientes até ficarem ligados. Com uma colher de sopa, distribuímos a massa, dando lhe forma de biscoitos, num tabuleiro de forno, untado. Espalma-mos com um garfo. Levamos ao forno, pré-aquecido a 160ºC, durante 15 minutos ou até estarem dourados. 





Ler mais

Granola Gulosa

Uma partilha
Chove lá fora. De uma forma a que já não estava habituada. Se na minha infância, grande parte dos dias de inverno eram vivenciados no conforto do lar, ao borralho, a pintar desenhos com a minha mãe e alguns tios, ou a torrar pão directamente no fogão a lenha, nos últimos anos os Invernos têm convidado a aquecer a alma em actividades outdoor brindadas pelo sol. Os tempos andam estranhos, isso é ponto assente. Depois de um Verão extremamente seco, dos incêndios e da falta de precipitação, a minha cidade tem vivido sob o pesadelo da seca extrema. É verdade que ainda não faltou água nas torneiras, mas a pressão começou a diminuir. Sentiu-se no ar a ameaça e as questões começaram a surgir? Será que vamos ter água no Verão? Como poderemos adoptar novos comportamentos de utilização de água? Como faremos face a eventuais fogos que possam ocorrer? Como iremos cozinhar, lavar roupa, tratar de todas a tarefas diárias? A verdade é só uma, dependemos da mãe natureza e não nos temos portado bem para com ela. Durante anos, tratámos este planeta como lixo, desposemos dos recursos naturais como se eles durassem para sempre. Fico feliz que cada vez mais instituições, ONG's, empresas e grupos de cidadãos alertem para a nova realidade que se vive, nomeadamente a do aquecimento global e de todos os problemas que este acarreta. Fico feliz que cada vez mais pessoas comecem a adquirir novos comportamentos, mais respeitosos para com a única casa que temos. No que me toca, sei que ainda tenho um longo caminho para fazer. Sei que posso ter uma pegada mais sustentável. Tenho lido muita informação, e estou sempre aberta a novas sugestões. 



 Para abafar um pouco as preocupações e dar algum alento, Fevereiro terminou com o melhor dos tesouros, uma chuva que promete abastecer barragens, animar os prados. As diferenças já se começam a notar. Por exemplo, o meu jardim começa a ganhar um verde de vida, convidando os pardais a chafurdar nas pequenas poças que se formam e bebericar dos galhos "pingosos".  Sabe bem acordar e tomar o pequeno-almoço à janela, a observar este cenário de vida, de um novo ciclo que tem início. Esta é a chuva necessária para que a Primavera chegue viçosa e florida. Por isso, chove lá fora, de uma forma a que já não estava habituada, mas isso deixa-me feliz e sem depressões meteorológicas. Sê bem-vinda chuva. Março, continua-nos a brindar com este ouro transparente. 





Granola Gulosa

Ingredientes
100g de manteiga (mais um pouco para untar)
100ml de mel (tenho usado mel Castanheiro Velho, da zona de Penedono)
2 colheres de sopa de açúcar mascavado
2 colheres de sobremesa (bem cheias) de cacau cru
400g de flocos de aveia finos
100g de sementes de girassol
100g de sementes de abóbora
100g de sementes de sésamo
200g de banana e ananás desidratado
100gr de passas
100gr de coco seco e ralado

Pre-aquecemos o forno a 180ºC. Untamos um tabuleiro com manteiga, cobrimos com papel vegetal e reservamos. Num tacho pequeno, juntamos o mel, a manteiga, o açúcar. e o cacau cru. Deixamos cozinhar alguns minutos, em lume brando, até os ingredientes derreterem e começarem a borbulhar ligeiramente. Numa tigela, misturamos os flocos de aveia com as sementes. Adicionamos a mistura da manteiga e do cacau derretidos e envolvemos bem. Vertemos no tabuleiro e espalhamos numa camada única. Levamos ao forno durante 35 minutos. Atenção que de 10 em 10 minutos temos de mexer a mistura, para que ela fique toda cozinhada. Tiramos do forno e juntamos a fruta desidratada e o coco. Deixamos arrefecer e guardamos em frascos herméticos. Esta receita conserva-se até 4 semanas.




Ler mais

Duo de Gelatina de Tangerina e Panna Cotta de Chocolate

Partilha a tua sensação
Nos tempos de meninice, sempre que o tempo, o meteorológico e a unidade temporal, permitia, subia os degraus do meu palácio. Nele sentia a brisa matinal como em nenhum sítio era possível. Arejado, com vistas largas que tocavam os montes hermínios e que me faziam perder o olhar nos campos agrícolas, nas vinhas, nos pinhais, no sossego da ruralidade. Era enorme aquele palácio, ou eu é que era pequena para tanto mundo que avistava do alto do terraço dos meus avós. Aquele era de facto o meu precioso tesouro, que embalava a minha infância e fazia crescer os meus sonhos. Sempre que me pedem para falar do campo e desta minha paixão pelas minhas raízes rústicas, é inevitável não pensar no terraço dos meus avós. O sítio de eleição da minha infância, onde passava horas a observar os agricultores nas lides de tratar a terra, que me permitia compreender os horários de quem passava e que ouvia as histórias mais incríveis de quem vendo uma pequenita sedenta de conhecer mundo partilhava as suas façanhas com gosto. Costumo dizer que foi este terraço que me fez gostar de alturas e me incentivou a elevar o olhar sempre para o longínquo horizonte, que sempre me fez questionar o que poderia estar para lá dessa linha visível. Mas acima de tudo, foi neste terraço que cresci a amar profundamente o campo. 


Faz um ano que regressei ao ambiente campestre. Durante quatro anos morei, por conveniência e não paixão, numa cidade. Estava perto do trabalho, perto dos serviços, perto das pertinências rotineiras. Durante quatro anos aprendi a descobrir as facilidades que a cidade permite e a aproveitar os seus pormenores e peculiaridades. Mas não foi um período de fácil adaptação. Se por um lado estou habituada a desenvolver as minhas tarefas laborais na cidade, e gosto, morar na cidade é todo outro nível de stress e ansiedade. Acho que só quatro anos depois é que percebi o quanto a cidade contribuiu para um certo estado de desgaste psicológico. Faltavam me estrelas para ver à noite, terraços para subir e cruzar olhares com o horizonte. Uma pessoa vai crescendo a ouvir que tem de ser adulta, tomar decisões com a cabeça, que sejam convenientes ao trabalho e à carteira, e muitas vezes o coração é silenciado nessa educação racional. Hoje sei que o meu coração só bate compassadamente e apaziguado no campo. Trabalhar na cidade e morar no campo não é um mar de rosas. As viagens tornam-se rotineiras e cansativas, o dinheiro torna-se mais escasso em contas que se multiplicam, o tempo, essa unidade mais preciosa que o ouro, foge das mãos porque já não moro a dois passos do trabalho. Porém, as noites ganharam estrelas e dedos que apontam constelações, ganharam o silêncio da chuva forte a bater nas vidraças embalando os sonhos, o entardecer tem mais chilrear esvoaçante e os dias ganharam uma cadeira de madeira no alpendre. E o mais curioso é que a vida deu as voltas que deu, para levar novamente à rua do meu palácio. Por quanto tempo? Não sei! A única certeza que tenho é que está na hora de aproveitar o que me faz feliz. 






Duo de Gelatina de Tangerina e Panna Cotta de Chocolate

Ingredientes para a Gelatina de Tangerina
450ml de sumo de tangerina
250ml de água quente
4 colheres de sopa de açúcar
15g de gelatina neutra em pó (1 saqueta e meia)

Espremer as tangerinas até obter 450ml de sumo. Coar o sumo através de um pano fino ou filtro. Num tacho colocar a água e p açúcar e levar ao lume até ferver, durante 1 a 2 minutos ou até o açúcar dissolver completamente. Retirar do lume. Juntar a mistura fervida quente ao sumo de tangerina com a gelatina neutra dissolvida. Mexemos bem. Dividimos o preparado em diversas formas. Levamos ao frigorífico a solidificar (mais ou menos três horas).

Ingredientes para a Panna Cotta de Chocolate
200g de natas
150ml de leite meio gordo
Chocolate de culinária 100g
2 colheres de sopa de açúcar
4 folhas de gelatina
Raspa inteira de duas tangerinas

Colocamos as folhas de gelatina a amolecer numa taça com água. Num tacho misturamos as natas, o leite, o açúcar e as raspas inteiras de tangerina. Levamos ao lume até o açúcar se dissolver por completo. Não deixamos ferver. Retiramos do lume e juntamos o chocolate partido em pedacinhos. Misturamos até obtermos uma mistura macia e de cor uniforme. Escorremos a gelatina e derretemos no micro-ondas durante alguns segundos. Juntamos ao preparado anterior, mexendo bem para incorporar. Deixamos arrefecer um pouco. Dividimos o preparado pelas formas onde já se encontra a gelatina de tangerina. Levamos ao frigorífico a solidificar, durante pelo menos cinco horas. O melhor é deixarmos no frigorífico de um dia para o outro.









Ler mais

Creme de Ervilhas

Partilha a tua sensação


Durante anos, a sopa foi um dos meus pratos mais detestados. Ódio. Sim, acho que posso falar em ódio por toda e qualquer receita de sopa. Não sei ao certo quando este sentimento profundo de repúdio começou, mas sei que vem de tenra idade. Talvez por causa da maneira como a alimentação era encarada, da obrigatoriedade em comer tudo o que estivesse no prato, a obrigatoriedade de experimentar todos os alimentos à força. Lembro-me sempre com angustia a maneira como era obrigada a comer a sopa no infantário. Sim, eu sei que é preciso muitas vezes pulso firme, principalmente junto de crianças difíceis, como eu era. Mas há tantas formas de ter pulso firme, de forma criativa. Eu ainda hoje me lembro dos vómitos, atrás de vómitos que eu sentia quando me enfiavam colheradas atrás de colheradas na boca. Não é de todo uma experiência que recorde com saudade. Portanto, durante anos tudo o que se assemelhava a textura de sopa, tinha sempre direito a vómito. Nada bonito, certo?! 



Felizmente, com os anos, a maturidade, a vontade de experimentar novas comidas, novas texturas, a necessidade de confortar a alma num dia longo de estudos ou de trabalho conduziu-me novamente ao mundo das sopas/cremes. Por isso, no meu dia-a-dia não falta a “tranca da barriga”, sendo que o fim-de-semana é o dia especial para preparar marmitas e marmitas deste prato tão delicioso. Há cerca de duas semanas, decidi preparar o meu primeiro creme de ervilhas. E pensar que quando era mais pequena poderia ter detestado esta maravilhosa receita. Ainda bem que a vida é um poço repleto de mudanças.



Creme de Ervilhas

Ingredientes
1 cebola
1 courgette pequena
3 cenouras pequenas
1 alho francês pequeno
400gr de ervilhas congeladas
Sal
Azeite q.b.


Lavamos, descascamos e cortamos em pedaços pequenos a courgette, as cenouras e o alho francês. Reservamos. Picamos a cebola e refogamo-la em azeite. Assim que a cebola alourar juntamos as cenouras, a courgette e o alho francês. Deixamos cozinhar até que os legumes comecem a amolecer. Adicionamos as ervilhas e cobrimos com água. Temperamos com sal. Assim que começar a ferver, deixamos cozinhar em lume brando, durante 35 minutos, até que as ervilhas fiquem macias. Trituramos a sopa. Se quisermos podemos saltear cogumelos e ervilhas em vagem e juntamos à sopa, no ato de servir.





Ler mais

Voltar aos loucos anos 20, na Curia

Partilha a tua sensação
Namorar é um verbo que se pratica cá em casa com afinco. Há miminhos nos dias bons, há gestos carinhosos nos dias mais difíceis, há gargalhadas malandras nos dias bem-dispostos e sorrisos meigos nos dias em que a desgraça reina. Existem sempre maneiras diferentes de amar dependendo do feitio dos dias. E se nos dias de humor leve tudo parece generoso e de fácil condução amorosa, é nos dias mais imperfeitos, de tempestade rotineira que sabemos que só um implacável gesto mimoso altera a emotiva formatação limitada. Um desses gestos, talvez o que mais gostamos, é pegar no carro e ir por esse Portugal fora, com ou sem destino traçado. Como dizem os Diabo na Cruz, Mergulhar, mãos no volante e adiante. Pra qualquer lugar. E, portanto, lá fomos nós saborear o Mar e as Serras. Deixámos a Beira casa, em direcção ao imaginário de belle epoque da Curia.

Se por um lado sou fã de edifícios modernos, com arquitectura de linhas direitas assente em simplicidade bem esquadrada. A verdade é que o vintage histórico das edificações que pertencem ao passado tem sobre mim um fascínio muito presente. Porque na maior parte dos casos são lugares com alma antiga, com maturidade que seduz ao espalhar as suas teias de curiosidades longínquas. Portanto, assim que no computador se acercou, dos meus olhos, a imagem do Curia Palace Hotel e Spa, eu soube que era amor à primeira vista.






É considerado por muitos um dos mais belos e lendários hotéis de Portugal. Construído nos dourados anos 20, foi um marco de bem viver na altura, ou não tivesse sido edificado para ser o maior e o mais cosmopolita hotel de Portugal. E durante muitos anos conseguiu cumprir estes objectivos. As festas eram constantes, com jantares à americana, bailes, jantares de gala, festas das vindimas, saraus culturais. Também o desporto teve um papel importante e faz parte da herança charmosa deste hotel, que acolhia desfiles de automóveis, competições de ténis e aulas de natação. Na entrada principal do Curia Palace Hotel e Spa, parte desta herança encontra-se exposta. É muito curioso, por exemplo, ler algumas das promoções das aulas de natação. talvez um bocadinho directas e frias para a época.

Lendo a história mágica, dá para sentir que o hotel era mais do que um simples espaço hoteleiro, era sim uma forma de estar na vida e de a aproveitar. Segundo alguns dados da história do hotel, é possível perceber que na altura havia pessoas que viviam mais tempo no hotel do que nas suas casas. Nessas temporadas passavam a receber o correio directamente no hotel, sendo que havia um guiché dedicado à recepção e envio do correio, um pbx gigante. Graças a todas as atenções que concentrou em si e às várias centenas de pessoas que movimentava, a Curia passou a ter paragem obrigatória do comboio. Algo que contribuiu para que mais pessoas, das grandes cidades da altura se deslocassem até aquela zona.







Como eu gostava de ter a oportunidade de viajar no tempo e assistir a toda o glamour com que se processava a vida na Curia naqueles anos, de dançar naqueles salões espaçosos, com tectos altos e repletos de arte nova. Bem, até posso não ter máquina do tempo, mas passar uma noite neste sítio é uma experiência única e diferente de todos os sítios onde já pernoitei.

Como seria de esperar, desde os anos 20, que o Curia Palace Hotel e Spa já sofreu muitas obras, sendo que no início dos anos 2000 esteve fechado para remodelações profundas. Contudo, apesar de profundas, nota-se que houve a preocupação de manter o ambiente clássico, algum misticismo e glamour da época, sem passar a linha para o lado do ambiente bafiento.





Não fiquei nada desapontada com esta experiência. Chegámos cedo e houve possibilidade de fazer o check in às 12h00. Logo na entrada principal, fiquei sem palavras, enquanto os meus olhos se apaixonavam pelo fantástico elevador em ferro, madeira e vidro da Maschinenfabrik Wiesbaden. Uma peça de arte, de 1926, que apesar de nos dias de hoje estar fechada, um simpático funcionário abriu as portas, para que pudesse fotografar o seu interior. Também o majestoso relógio da entrada principal, um relógio de Paul Garnier de Paris, fez-me desejar que o tempo parasse ali mesmo.

Confesso depois da entrada principal, ao percorrer os enormes corredores, me assustei um bocadinho com a luz difusa e as portas estreitas e super altas. De facto, é preciso deixar o corpo e a alma habituar-se à aura antiga do espaço, à energia que emana do passado. Algo que foi facilmente ultrapassado assim que abrimos a porta do quarto. À nossa espera estava um espaço com um ar de outrora mas onde se nota já um toque de modernidade. Apesar de ter gostado imenso do quarto, foi a casa de banho que me conquistou a 100 por cento. Em mármore branca e preta, com luz natural, estilo anos 20 e torneiras antigas. Sou louca por torneiras estilosas. Sim, talvez seja um gosto incomum, mas é algo que capta logo o meu olhar e que, assim que avisto uma, tenho de a fotografar.







Claro que o sítio que mais usámos e abusámos, foi a zona de Spa que foi construída de raíz com as últimas obras que o hotel sofreu. Com piscina, sauna, banho turco, e zona de tratamentos, é uma mais valia neste espaço hoteleiro.

A comida do hotel é também aconselhada. Tivemos a oportunidade de experimentar o buffet do jantar e o buffet do pequeno-almoço. Nota-se um cuidado especial nos detalhes e na forma como as pessoas são acolhidas no magnífico e lindíssimo Restaurante Belle Époque. . As paredes são trabalhadas todas a madeira, e a cor geral do salão convida a que uma pessoa fique mais um pouco, que se demore a apreciar os sabores, que desfrute de mais um dedo de conversa.

A Curia é uma zona pacata, parece quase parada no tempo, mas no bom sentido. Constitui um excelente destino para namorar em sossego e relaxar o corpo e a mente, principalmente depois umas semanas um algo complicadas e desgastantes como nós tínhamos tido. Caminhamos imenso no parque da Curia, ao lado do hotel. Trata-se de um espaço de 14 hectares, de mata, jardins e lagos, onde o ritmo é lento e agradavelmente saboroso.







Ler mais
Próximo publicaçãoMensagens mais recentes Publicação anteriorMensagens antigas Página inicial